Inteligência Artificial muda processo de criação e levanta debate sobre autoria na tatuagem
Tatuadores com dez anos de experiência relatam diferentes formas de utilizar ferramentas de IA e discutem os limites entre referência, criação e reprodução
A Inteligência Artificial já entrou nos estúdios de tatuagem. Ferramentas capazes de gerar imagens a partir de comandos passaram a ser usadas para desenvolver ideias, testar possibilidades e encontrar referências visuais. Mas, quando uma imagem criada com auxílio de uma máquina chega às mãos de um tatuador, uma questão permanece: quem é o autor?
Elvis Darossi da Silva, dono de um estúdio e tatuador há dez anos, utiliza a Inteligência Artificial como ponto de partida para alguns projetos. Segundo ele, a ferramenta ajuda principalmente quando existe uma ideia, mas falta uma forma de visualizá-la.
“Eu uso esse processo nas minhas criações de tatuagem como uma referência. Às vezes eu estou querendo criar uma ideia e não consigo mentalizar”, explica.
O processo, segundo Elvis, não termina quando a imagem é gerada. A referência passa por alterações e é combinada com elementos de outras fontes. O tatuador utiliza o Sketchbook para desenhar sobre as imagens, modificar características e construir a composição que será levada para a pele.
A anatomia também influencia o uso da ferramenta. Elvis afirma que a IA pode ajudar a visualizar como uma composição se adapta a determinada região do corpo.
Para ele, o resultado final é diferente da imagem produzida inicialmente pela ferramenta justamente pelas modificações realizadas durante o processo.
Quando referência vira reprodução
A experiência de Ruan Veiga, tatuador há dez anos e profissional de um estúdio, mostra outra interpretação sobre o uso da tecnologia.
Ruan não considera a Inteligência Artificial necessariamente incompatível com a criação de tatuagens. A diferença, para ele, está na forma como o resultado é utilizado.
“Exclusivo e autoral são duas coisas bem diferentes”, afirma.
Segundo o tatuador, existe diferença entre utilizar uma imagem como ponto de partida e simplesmente reproduzir o resultado produzido pela ferramenta.
Para Ruan, a identidade do profissional também faz parte da criação. Ele cita como exemplo artistas que possuem características reconhecíveis em seus trabalhos. Apesar de utilizar esse raciocínio para questionar algumas formas de uso da IA, Ruan não defende a proibição da ferramenta.
“Eu não ligo. Cada um faz o que quer. Só acho meio ruim às vezes colocar como autoral, sendo que não é autoral, e sim exclusivo”, explica.
RUAN VEIGA
O que muda para o cliente?
A discussão sobre autoria também envolve a relação entre tatuador e cliente. Afinal, o consumidor deve saber quando uma ferramenta de Inteligência Artificial participou do desenvolvimento do desenho?
Os dois profissionais entrevistados não consideram necessário informar obrigatoriamente o cliente. Elvis explica que a IA representa apenas uma parte de um processo que pode envolver diferentes referências e modificações.
“Eu não acho que é algo que tem que ser comentado, porque eu modifico muito as artes antes de chegar ao cliente”, afirma.
A situação seria diferente caso o profissional simplesmente apresentasse uma imagem gerada pela IA como se tivesse sido desenhada integralmente por ele? Para os entrevistados, a quantidade de intervenção humana é um dos elementos que diferencia essas situações.
A questão da autoria não surgiu com a tatuagem. A popularização dos geradores de imagens ampliou uma discussão que já existe em outras áreas criativas: qual é o papel da pessoa quando uma ferramenta tecnológica participa da produção de uma obra?
No caso dos tatuadores, a questão ganha uma particularidade. O desenho não é necessariamente o resultado final. Ele precisa ser adaptado ao corpo, às características da pele e à execução do profissional.
Isso faz com que o processo tenha várias etapas: ideia, pesquisa, geração de referências, seleção, edição, desenho e aplicação.
Quanto maior a participação humana em cada uma dessas etapas, diferentes são as interpretações dos profissionais sobre o resultado. Elvis entende que suas alterações e seu processo de criação fazem com que o trabalho seja dele, mesmo com a participação da IA. Ruan chama atenção para a necessidade de distinguir uma produção exclusiva de uma criação que carregue uma identidade própria.
O avanço das ferramentas de geração de imagens não estabelece uma única maneira de criar uma tatuagem. Alguns profissionais podem utilizá-las apenas para inspiração; outros podem desenvolver parte do desenho a partir delas; e há casos em que a imagem gerada pode chegar ao cliente com poucas alterações.
Essas diferenças tornam a autoria uma questão mais complexa do que simplesmente perguntar se uma tatuagem foi ou não feita com Inteligência Artificial.
A tecnologia pode participar do processo, mas a maneira como o profissional seleciona, transforma, combina e executa uma ideia também faz parte da discussão.
Para os tatuadores entrevistados, a questão não está apenas em utilizar ou não a IA, mas em como ela é utilizada.
E, à medida que essas ferramentas passam a fazer parte da rotina dos profissionais, uma pergunta continua aberta: quando uma máquina participa da criação de uma tatuagem, em que momento aquela imagem deixa de ser apenas uma referência e passa a ser considerada uma criação autoral?