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Origem como alvo: migrantes enfrentam acusações sobre violência sem evidências em Joinville

 Origem como alvo: migrantes enfrentam acusações sobre violência sem evidências em Joinville
Rodoviária de Joinville é um dos pontos de chegada e saídas de migrantes na cidade (Foto:Maria Eduarda Lopes/Primeira Pauta)
4º Semestre Joinville e região Jornalismo Digital I Segurança

Origem como alvo: migrantes enfrentam acusações sobre violência sem evidências em Joinville

by Maria Vieira 28 de setembro de 2026

Dados de segurança não sustentam associação entre migração e violência na cidade 

Cerca de 34 mil migrantes do Norte e Nordeste escolheram Joinville para morar de forma contínua na última década, conforme aponta o Censo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2022. O fluxo migratório também é acompanhado por relatos de xenofobia e discursos que associam a chegada de nordestinos e nortistas ao aumento da criminalidade, sem base em evidências estatísticas.

Na sondagem aplicada pelo Primeira Pauta com 13 migrantes nortistas e nordestinos residentes em Joinville reforça esse cenário de tensão silenciosa. Embora o número de participantes não represente estatisticamente a população migrante, os relatos ajudam a ilustrar situações de preconceito vivenciadas por eles. A grande maioria (10/13) veio para a cidade em busca de trabalho, visto que a região é conhecida por ser o polo industrial de Santa Catarina. Apesar de estarem inseridos no mercado local, os moradores relatam um cotidiano marcado por preconceito, 11 deles afirmam ter sofrido discriminação por causa do sotaque, dos hábitos ou da forma de agir.

Todos os entrevistados relataram que já leram ou ouviram, nas redes sociais, comentários que associam a chegada de migrantes nortistas ao aumento da violência em Joinville. “Existem muitos comentários de joinvilenses dizendo que quem veio de fora deveria voltar para o seu estado se sente falta de lá, da própria cultura e dos costumes, ou falando como se determinadas pessoas fossem donas da cidade”, comenta Isabela da Silva (nome alterado a pedido do entrevistado).

Além disso, a desconfiança ultrapassa as telas, dez dos participantes mencionaram que em algum momento se sentiram vigiados em lojas por conta do seu sotaque. Isabela completa afirmando que a segurança deveria ser discutida com base em fatos e responsabilidades individuais, e não na origem de quem mora na cidade.

“Uma pessoa não se torna criminosa porque nasceu no Norte ou no Nordeste, assim como alguém não deixa de ser responsável por um crime  porque nasceu em Santa Catarina.”

Registros oficiais da Secretaria de Proteção Civil e Segurança Pública (Seprot) de Joinville apontam que em janeiro de 2026, apesar do crescimento populacional e do fluxo migratório, a cidade apresenta queda pelo terceiro ano consecutivo no índice de criminalidade. Esse cenário contrasta com o discurso de que a chegada de novos moradores estaria diretamente relacionada ao aumento da violência. 

A diretora-executiva da Secretária de Assistência Social, Valquíria Foster, afirma que a prefeitura não possui uma verba específica destinada à integração de migrantes. Ela também declara, porém, que o atendimento acontece de forma igualitária. “Quando uma família vinda de outro estado busca a Secretaria de Educação para matricular os filhos, ela é encaminhada para as vagas conforme o zoneamento, do mesmo jeito que ocorre com as famílias joinvilenses e o atendimento na área da saúde segue a mesma lógica”, informa.

O preconceito se reinventa

Para o sociólogo Dauto João da Silveira, doutor em Sociologia pela UFPR e com estágio de pós-doutorado em Tecnologia e Sociedade pela UTFPR, o preconceito contra trabalhadores vindos de outras regiões não é algo novo nem exclusivo de Joinville. Foi algo que, segundo ele, ganhou capítulos dramáticos na sociedade capitalista. Embora a cidade tenha sido marcada pela imigração germânica, os próprios alemães também passaram por processos de exclusão ainda no século XIX. Para ele, isso mostra que o mecanismo se repete ao longo do tempo, sempre elegendo um novo “outro” contra quem a cidade reage.

Dauto cita Karl Marx para ilustrar, que no século XIX, a rivalidade entre trabalhadores ingleses e irlandeses na Inglaterra industrial. Segundo o autor mencionado, o trabalhador inglês comum via o irlandês como um concorrente que reduzia seu padrão de vida, quando a Inglaterra era o país mais importante economicamente do mundo. Esse preconceito também aconteceu entre os trabalhadores estadunidenses e ingleses. “A xenofobia e o preconceito servem como instrumento em torno do qual a burguesia local controla e divide a classe trabalhadora”, cita Dauto. Ele explica que ocorre uma disputa no terreno material por melhores condições sociais e que se repete na forma de pensar.

O sociólogo também defende que o debate sobre preconceito e migração seja mantido de forma permanente. Ele critica tanto a “direita conservadora” quanto o que classifica como uma “esquerda liberal e identitária”. “Para a burguesia da cidade, industriais e grandes comerciantes, não há risco algum. Inclusive, é algo constitutivo da dinâmica contraditória da cidade. Isso exige, para nós intelectuais revolucionários, professores críticos, o debate permanente”. Ele argumenta que ambas as posições contribuem, de maneiras diferentes, para a divisão entre trabalhadores. “A nossa luta tem de ser travada contra essas duas posições”, afirma.

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Tags: migração Região Nordeste Região Norte Secretaria de Proteção Civil e Segurança Pública Segurança Pública Seprot xenofobia
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