Educação bilíngue atende 56 estudantes deficientes auditivos na Rede Municipal de Joinville
Programa Mãos em Ação utiliza Libras como primeira língua e reúne estudantes em quatro escolas-polo
No Dia Nacional dos Surdos, celebrado neste sábado (26), a educação bilíngue para estudantes surdos ganha destaque como uma das formas de ampliar o acesso à aprendizagem e à comunicação. Em Joinville, 56 alunos da Rede Municipal de Ensino são atendidos pelo programa Mãos em Ação, que mantém turmas bilíngues em quatro unidades escolares.
O atendimento ocorre no CEI Zé Carioca, para a Educação Infantil, nas escolas Léa Maria Aguiar Lepper e Sebastião Scarzello, para os anos iniciais do Ensino Fundamental, e na Escola Anna Maria Harger, que atende estudantes do 6º ao 9º ano. As turmas são organizadas desde 2021 com a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como primeira língua e o português como segunda. Os estudantes seguem o currículo da Rede Municipal, mas os conteúdos são adaptados às especificidades linguísticas da comunidade surda. As salas são multisseriadas e contam com professores bilíngues, surdos ou ouvintes.
Formação começa além da sala de aula
Para que a comunicação não fique restrita às aulas, a Secretaria de Educação oferece anualmente cursos de Libras, do nível básico ao avançado, para profissionais das escolas. A formação também pode envolver funcionários de setores como cozinha, recepção e administração, além de professores que não atuam diretamente nas turmas bilíngues.
Segundo a gerente de Apoio à Aprendizagem da Secretaria de Educação, Deyse Zapelini Faust, a medida busca garantir que os estudantes consigam se comunicar em diferentes espaços da escola.
“Além da sala de aula, esses nossos estudantes precisam acessar outros espaços, desde a recepção, desde a matrícula, até na hora da alimentação, na hora do recreio”, explica.
A proposta também alcança as famílias e a comunidade escolar. Em algumas unidades, são oferecidos cursos de Libras para ampliar a comunicação com os estudantes surdos fora das salas de aula. Na Educação Infantil, o contato com o programa pode representar o primeiro contato sistemático da criança com a Libras. Muitas chegam à escola utilizando apenas sinais caseiros para situações do cotidiano. A partir daí, passam a desenvolver a Libras como primeira língua e o português como segunda.
Nos anos iniciais, o currículo é adaptado para acompanhar o processo de alfabetização. Já nos anos finais, os estudantes têm aulas dos diferentes componentes curriculares, com professores bilíngues auxiliando na adaptação dos conteúdos e na interpretação em Libras. A língua de sinais também é trabalhada como componente curricular por um professor surdo.
Experiência muda relação com a escola
Na Escola Municipal Professora Anna Maria Harger, 21 estudantes surdos participam do programa. A diretora Lucelia Krelling conta que, quando a unidade começou a receber as turmas, professores e funcionários precisaram rever a forma de comunicação. Ela lembra que, no início, havia insegurança entre os profissionais sobre como se comunicar com os novos estudantes. O contato com as turmas, porém, mudou essa percepção. “Eles tinham condições de aprender, eles sabiam a língua, que é a Libras, e quem não sabia era eu, quem não sabia eram os professores”, relata.
A partir disso, a escola passou a ampliar a formação em Libras entre os funcionários. Hoje, segundo a diretora, o conhecimento da língua também está presente em setores como a secretaria e a cozinha, permitindo que os estudantes tenham mais autonomia durante a rotina escolar.
A experiência também se relaciona diretamente com a trajetória do professor surdo Killian Ferreira. Na infância, ele estudou em uma sala formada apenas por estudantes ouvintes e encontrou dificuldades para acompanhar as explicações. “Quando eu era criança, estudei em uma sala só com alunos ouvintes e era muito complicado. A explicação do professor era bem difícil de entender”, conta. Hoje, atuando com estudantes surdos, ele identifica uma mudança na própria experiência escolar e profissional. “Hoje, como professor, melhorou bastante. Consigo ensinar os alunos surdos e ter essa troca de aprendizado com eles.”
Entre os estudantes atendidos está Julia Schubert Araújo, de 11 anos. Para ela, a possibilidade de aprender diretamente em Libras facilita não apenas as atividades escolares, mas também a convivência com os colegas.
“Com os professores ensinando em Libras, é muito bom. A gente conversa, brinca junto com todos os outros alunos, aprendemos bastante aqui”, afirma.
Mais do que marcar uma data no calendário, o Dia Nacional dos Surdos também coloca em discussão as condições de acesso à educação e à comunicação. Em Joinville, a experiência das escolas-polo mostra como o uso da Libras desde os primeiros anos de ensino pode aproximar estudantes, professores e comunidade escolar e ampliar a participação dos alunos surdos na rotina da escola.
Nota de transparência: esta matéria contou com auxílio de inteligência artificial na apuração dos fatos, assim como na revisão ortográfica e textual.