ESPECIAL

Como crises globais moldam o futuro dos jovens

Da crise climática à desigualdade urbana, dados mostram como os desafios do presente influenciam os caminhos da juventude.

PUBLICADO EM

16 DE JUNHO DE 2026

14 DE DEZEMBRO DE 2024

O

futuro deixou de ser uma visão linear para se tornar um território incerto. Em um cenário marcado por mudanças climáticas intensificadas anualmente, guerras prolongadas, desigualdades estruturais, as novas gerações crescem à sombra de inúmeras crises além das individuais que esse período da vida já provoca. 

Dados recentes indicam a dimensão do problema. Segundo o G1, 2024 foi o ano mais quente já registrado no planeta, com a temperatura média atingindo 1,6°C acima dos níveis pré-industriais, ultrapassando o limite considerado seguro. Esse marco acende um alerta global: os efeitos das mudanças climáticas já não são projeções futuras, mas realidade presente. 

No Brasil, o avanço do desmatamento segue sendo um dos principais agravantes. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais mostram que a devastação na Amazônia Legal continua impactando o equilíbrio climático e ampliando eventos extremos, como enchentes e secas, fenômenos que atingem diretamente cidades como Joinville, historicamente vulneráveis a alagamentos.

Além da crise ambiental, conflitos armados ao redor do mundo contribuem para um cenário de instabilidade. Dados da plataforma ACLED apontam a permanência de dezenas de conflitos ativos em diferentes regiões. Esse contexto alimenta outro fenômeno crescente: o deslocamento forçado. 

De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, mais de 110 milhões de pessoas estavam deslocadas até meados de 2023, o maior número já registrado. Embora distante geograficamente, esse cenário reforça tensões globais que impactam economias, políticas migratórias e percepções de futuros.

Desigualdade e “meritocracia”

A nível nacional e global, a desigualdade continua sendo um dos principais obstáculos. No Brasil, a precariedade habitacional atinge 25% das famílias, segundo dados da Agência da Câmara. O déficit habitacional já soma cerca de 5,9 milhões de moradias.

Em cidades como Joinville, o crescimento urbano acelerado escancara contradições: enquanto parte da população está amparada com infraestrutura, outra enfrenta dificuldades para acessar até mesmo serviços básicos essenciais como moradia, mobilidade urbana e segurança. 

É nesse ponto que iniciamos a discussão sobre meritocracia. A ideia de que o esforço individual é suficiente para garantir a ascensão social esbarra em barreiras estruturais.

Para Hernandez Vivan, doutor em Filosofia e integrante do Observatório Urbano de Joinville, o principal gargalo habitacional da cidade não é exatamente a ausência de moradias, mas a forma como elas são distribuídas e apropriadas pelo mercado imobiliário. Segundo ele, “não há propriamente uma falta de construção de casas. Há uma certa oferta de casas, até mais ou menos equilibrada com a demanda, mas que estão vazias”.

O pesquisador afirma que muitos imóveis permanecem desocupados por interesses especulativos. “Isso se repete em boa parte do Brasil, um certo equilíbrio entre pessoas que precisam de casas e casas desocupadas, ou seja, que estão ali paradas e que estão esperando pura e simplesmente a sua valorização.”

Essa lógica, segundo ele, empurra a população de baixa renda para áreas mais afastadas e precárias. “Os piores lugares do ponto de vista da infraestrutura acabam sendo mais baratos e esse é o processo que condiciona, que leva, que conduz à periferização da cidade.” 

Para o pesquisador, a desigualdade urbana em Joinville também se manifesta na atuação do poder público. “Há uma grande atenção às áreas nobres e uma desatenção quase completa das áreas periféricas, ou se nelas o Estado aparece, aparece como repressão.”

Segurança: avanços e contradições

Santa Catarina foi considerado o estado mais seguro do país de acordo com ranking nacional de Segurança Pública em 2025 baseado em dados do Ministério da Saúde e do IBGE. No entanto, essa percepção convive com dados preocupantes especialmente no que diz respeito à violência de gênero. 

Nos três primeiros meses de 2026, o estado já registrou 12 feminicídios, cerca de 23% do total contabilizado em 2025, e 9.515 requerimentos de medidas protetivas, o equivalente a aproximadamente 30% dos pedidos registrados no ano anterior. Diante desse cenário, surge uma questão inevitável: dentro de casa, o estado também é seguro? E, sobretudo, para quem?

Diferentes formas de violência seguem atravessando o cotidiano feminino. A advogada Camila Vizoto explica que a violência patrimonial é uma das manifestações menos percebidas da violência de gênero, justamente por estar associada a práticas frequentemente naturalizadas dentro das relações. Segundo ela, “a violência patrimonial advém da histórica relação de desvantagem econômica da mulher em relação ao homem”. Prevista na Lei Maria da Penha, ela envolve a destruição, retenção ou controle de bens, documentos, dinheiro e instrumentos de trabalho da vítima.

Para Camila Vizoto, o aumento dos casos de feminicídio evidencia que a violência de gênero continua sendo uma crise estrutural no país. “A sociedade traz a violência contra a mulher como algo comum do cotidiano, o que não pode jamais ser aceito”, afirma. A advogada também ressalta que “nosso machismo cultural e estrutural nos violenta todos os dias”, reforçando que a insegurança não se limita aos espaços urbanos, mas também está presente dentro de casa.

O pesquisador também destaca que a infraestrutura urbana influencia diretamente na vulnerabilidade de grupos sociais, especialmente das mulheres. Segundo ele, “é preciso debater os aspectos estruturais de infraestrutura urbana que, se não produzem, ao menos facilitam muito a violência contra determinados grupos”.

Entre os fatores apontados estão a iluminação pública precária, transporte insuficiente e o esvaziamento dos espaços urbanos durante a noite. “Uma cidade viva, uma cidade segura, precisa ter índices de densidade maiores”, afirma. “Às vezes não tem ninguém na rua. Shopping cheio, ruas vazias.”

A realidade reforça que a segurança pública não pode ser analisada apenas por indicadores gerais, mas precisa considerar também recortes sociais e de gênero.

Os jovens estão preocupados?

Diante de um cenário de incertezas, a forma como os jovens percebem o futuro deixa de ser apenas uma questão imaginária e passa a ser mensurável. Dados recentes indicam que a preocupação com crises globais, principalmente as relacionadas às mudanças climáticas, impacta diretamente a saúde mental da população.

Uma pesquisa do Instituto Cactus com a AtlasIntel mostra que 54% da população brasileira se preocupa com frequência com os impactos da crise climática, enquanto cerca de 42% afirma que essas mudanças já afetaram sua saúde mental. Entre os efeitos mais recorrentes estão ansiedade, medo e dificuldade de manter a rotina, sintomas que atingem de forma mais intensa jovens e mulheres.

Esses dados sugerem que a incerteza deixou de ser uma projeção distante e passou a integrar nosso cotidiano. Quando eventos extremos se tornam mais frequentes e questões como moradia, segurança e estabilidade econômica permanecem instáveis, o futuro deixa de ser planejado com previsibilidade e passa a ser vivido sob tensão.

Em cidades como Joinville, essa percepção se materializa no cotidiano. Problemas globais que parecem distantes ganham forma em enchentes recorrentes, desigualdade no acesso à cidade e insegurança urbana. Ainda assim, a rotina raramente é interrompida: mesmo diante de ruas alagadas, o trabalho, a escola e os compromissos seguem, revelando como situações de risco são normalizadas. 

O impacto das mudanças climáticas também não é vivido de maneira igual entre os moradores. Segundo Hernandez, “as pessoas de baixa renda, em virtude de sua carência econômica, são empurradas para os piores locais da cidade”, especialmente regiões sujeitas a alagamentos e ocupações precárias. 

Ele afirma que os efeitos das enchentes evidenciam a desigualdade estrutural da cidade. “O centro alaga? Alaga, mas o centro limpa rápido.” Já nas periferias, explica, “as pessoas perdem os poucos bens que têm, têm as suas casas destruídas e contraem doenças em virtude do contato com a água poluída.” Para ele, os alagamentos seguem sem receber a atenção necessária no planejamento urbano local. “Nos projetos urbanísticos e nas preocupações urbanísticas locais, isso não tem recebido a devida atenção que merece.”

Futuro em disputa

Mais do que um conjunto de crises isoladas, o cenário atual demonstra uma disputa sobre quais futuros serão possíveis e para quem. Entre o agravamento das desigualdades, o descaso por parte das autoridades e a busca por soluções sustentáveis e inclusivas, o horizonte permanece sendo uma dúvida.

Para o integrante do Observatório Urbano, o futuro de Joinville depende menos de soluções tecnológicas e mais de decisões políticas. “O problema da moradia em Joinville não vai ser resolvido por casas de plástico ou carros voadores. São questões políticas que exigem soluções políticas.”

Entre as medidas defendidas por ele estão a aplicação do IPTU progressivo sobre imóveis vazios e melhorias no transporte coletivo. “Se a gente quer ter uma Joinville melhor em 2050, a gente deveria se empenhar na ocupação dessas áreas do entorno do centro e numa melhoria brutal do transporte coletivo.”

Para ele, desigualdade social e crise ambiental são inseparáveis. “A injustiça ambiental e a desigualdade social andam de mãos dadas, são as duas faces de uma mesma moeda.”

“A injustiça ambiental e a desigualdade social andam de mãos dadas, são as duas faces de uma mesma moeda.”
Hernandez Vivan
pesquisador

O que a escola revela sobre o país

Bebedouros quebrados, placa de saída de emergência quebrada, banheiros sem papel e lixeiras transbordando. Esses são alguns dos fragmentos registrados pelos alunos da Escola Governador Celso Ramos, imagens que revelam, sem filtro, como as políticas públicas se manifestam, ou deixam de se manifestar, no dia a dia escolar.

Com câmeras nas mãos e um olhar atento ao que a rotina torna invisível, os estudantes percorreram corredores, pátios e banheiros com uma missão: fotografar o que as políticas públicas constroem, ou deixam de construir, dentro da própria escola onde estudam.

As imagens desta galeria não são apenas registros fotográficos. São leituras críticas do espaço. Cada enquadramento carrega uma pergunta implícita: por que isso é assim? E, mais importante, quem é responsável por mudar?

especial

Reportagem especial produzida por estudantes do 7º período do curso de Jornalismo da Faculdade Ielusc durante o primeiro semestre letivo de 2026 na disciplina Projeto Jornalístico Multimídia, ministrada pelo professor Hendryo André, com áudios produzidos na disciplina Narrativas Sonoras III, ministrada para o 5º período pela professora Geórgia Santos.

Os conteúdos publicados não refletem necessariamente a posição da Faculdade Ielusc.

editora-chefe

Maria Eduarda Alecrim

Elisa Moraes

Yasmin Pohlmann

editor executivo
textos

Ellen Gerber, João Guilherme Nascimento, Luana da Maia, Milena Natali, Rodrigo Santanna e Sarah Falcão

INFOGRAFIA

Henrique Duarte e Elisa Moraes

vídeos

Anna Bibow, Bruna Borges, Giovana Franco, Guilherme Miranda e Júlia Balsanelli

fotografia

Crislaine Moreira, Leonardo Budal e Stefani Junge

montagem

Maria Eduarda Alecrim e Yasmin Pohlmann

áudios (5ª fase)

Adryan William Dal Negro, Brayam Vinicius Adolfo, Camila Regina Schatzmann Gomes, Camilly Vitoria Antunes, Cauã Vitor Pereira, Danielly Ketlyn Vieira, Gabrielle Dalmoro, Giovanna Marques, Isabelly Marques Andrade, Júlia Gava Vargas, Júlia Moloies, Kamila Fortunato, Kamyli Ellen Batista Goudinho, Kédima dos Santos, Larissa Piske Pereira, Mahyara Luiza dos Santos, Marcus Vinícius de Oliveira, Maria Clara Kuboski dos Santos, Maria Eduarda Ribeiro, Maria Luiza Perovano Pacheco, Priscila Pereira, Raulino de Oliveira Dalcim, Thiago Alexandre dos Santos, Vinicius Vigineski e Yasmin Luiza Rech.

SOBRE NÓS

Primeira Pauta é o jornal-laboratório produzido pelos estudantes do curso de Jornalismo da Faculdade Ielusc. 

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