ESPECIAL

Jovens da rede pública tentam transformar políticas em oportunidades

Programas como Universidade Gratuita, ProUni e Pé-de-Meia ampliam acesso à educação, mas estudantes ainda enfrentam dificuldades

PUBLICADO EM

16 DE JUNHO DE 2026

14 DE DEZEMBRO DE 2024

A

criação de políticas públicas voltadas ao acesso à educação transformou o cenário do ensino superior brasileiro nas últimas décadas. Programas como ProUni, Fies, Universidade Gratuita e Pé-de-Meia ampliaram o acesso à universidade para estudantes da rede pública e de baixa renda. Em Santa Catarina, mais de 57 mil alunos já foram beneficiados pelo Universidade Gratuita e pelo Fundo de Apoio à Manutenção e ao Desenvolvimento da Educação Superior Catarinense (Fumdesc)

Ao mesmo tempo, programas federais como o ProUni, criado em 2004, já concederam mais de 3,4 milhões de bolsas em universidades particulares em todo o país. O Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) também se consolidou como alternativa para estudantes de baixa renda financiarem cursos superiores. Mas, na prática, a realidade dos estudantes da rede pública ainda revela obstáculos que vão muito além do acesso formal às vagas. 

Na Escola de Ensino Médio Governador Celso Ramos, em Joinville, jovens convivem diariamente com jornadas de trabalho, deslocamentos longos, ansiedade e a necessidade de amadurecer cedo para ajudar no sustento das famílias. A estudante Nicoli Souza Miranda, de 17 anos, é um retrato dessa realidade. Aluna do ensino médio noturno, ela sonha em cursar Direito em uma universidade pública e, futuramente, seguir carreira na Polícia Federal

“Eu quero muito fazer uma faculdade. Eu preciso fazer uma faculdade. É o meu sonho”, afirma. Mesmo trabalhando e enfrentando problemas de saúde recentemente, Nicoli segue estudando para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), principal porta de entrada para universidades públicas e programas de bolsas. “Eu aproveitei um tempo que fiquei afastada do trabalho para estudar o dia inteiro pro Enem”, conta. 

Mais do que números, bolsas ou estatísticas, as políticas públicas de educação acabam refletindo diretamente na rotina de jovens que tentam equilibrar estudo, trabalho e futuro. Em meio a reformas educacionais e programas de incentivo, histórias como a de Nicoli mostram que o acesso à universidade avançou nos últimos anos, mas que transformar oportunidade em permanência ainda depende de uma rede de apoio que vá além da sala de aula.

Antes da universidade, o ensino médio

Para muitos estudantes da rede pública, o ensino superior é resultado de uma caminhada que começa ainda no ensino médio. Reformas educacionais, mudanças curriculares e programas de incentivo à permanência escolar alteraram, ao longo das últimas décadas, a forma como os jovens chegam à universidade. Desde 2009, com a Emenda Constitucional nº 59, a educação básica passou a ser obrigatória dos 4 aos 17 anos no Brasil, incluindo oficialmente o ensino médio como direito garantido pelo Estado. 

Na prática, essas transformações impactam histórias como a de Nicoli. Na família dela, apenas três pessoas concluíram uma graduação entre os sete irmãos da geração de seus pais.“Meu pai não terminou nem o ensino médio. Acho que ele só estudou até o quinto ano”, relata. A mãe, formada em Sociologia e ex-professora da rede pública, só conseguiu concluir a primeira faculdade anos depois de ter filhos. “Minha mãe só terminou a faculdade quando eu já tinha nascido”, afirma.

Linha do tempo: marcos das políticas de acesso e permanência

Programas e leis federais e estaduais criados para conectar o ensino médio à universidade e ao mercado de trabalho

Selecione um marco histórico:

1996 LDB

Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB)

Aprovada em 1996, a lei reorganizou a educação nacional. Definiu o ensino médio como etapa final da educação básica e fixou a carga horária mínima de 800 horas anuais.

Análise de impacto:

Apesar de consolidar o ensino médio como direito, manteve a divisão entre a formação geral de caráter acadêmico e a educação técnica profissionalizante voltada ao mercado operacional.

Fonte: Inep Infografia: Henrique Duarte

A assistente social Mariana de Souza Carrão, que atua no acompanhamento de famílias em situação de vulnerabilidade em Joinville, destaca que muitos jovens chegam ao fim do ensino médio já sobrecarregados pelas responsabilidades da vida adulta. “Muitos desses estudantes vivem uma rotina de sobrevivência. Eles trabalham o dia inteiro, ajudam financeiramente em casa e ainda precisam encontrar energia emocional para pensar no vestibular e no futuro profissional”, afirma.

Para a assistente social, embora as políticas públicas tenham ampliado o acesso à educação nos últimos anos, muitos estudantes ainda precisam enfrentar obstáculos que começam antes mesmo da universidade. Entre trabalho, responsabilidades familiares e pressão emocional, concluir o ensino médio e continuar estudando ainda representa um desafio diário para milhares de jovens brasileiros.

O papel do governo na permanência estudantil

Nos últimos anos, o Governo Federal passou a investir em programas voltados à permanência dos estudantes no ensino médio. Um dos principais exemplos é o Pé-de-Meia, criado para reduzir a evasão escolar entre jovens de baixa renda. O programa oferece incentivos financeiros condicionados à frequência escolar e à participação no Enem. Atualmente, mais de 4 milhões de estudantes são beneficiados pela iniciativa.

Nicoli não recebe o auxílio, mas acredita que o benefício faria diferença para muitos jovens. “Se eu recebesse, eu vinha todo dia pra escola.” Segundo ela, muitos estudantes faltam às aulas porque precisam trabalhar ou enfrentam dificuldades financeiras relacionadas ao transporte.

Os programas tentam reduzir barreiras econômicas que afastam jovens da escola. Para muitos estudantes da rede pública, o desafio não é apenas passar no vestibular, mas conseguir continuar estudando enquanto equilibram trabalho, transporte e despesas.

O papel do governo vai muito além de abrir vagas. Em um país marcado por desigualdades sociais históricas, políticas públicas de incentivo se tornam fundamentais para garantir que estudantes não apenas entrem na escola ou na faculdade, mas consigam permanecer nelas. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), por exemplo, estabelece a educação como um direito fundamental e dever do Estado, reforçando a responsabilidade do poder público em criar condições para o acesso e a permanência de crianças e adolescentes no ambiente escolar.

“Educação não prepara para a vida adulta”

Apesar das mudanças recentes no ensino médio e da implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), muitos estudantes ainda sentem falta de uma formação mais prática e conectada à realidade. Nicoli acredita que o ensino tradicional ainda falha ao preparar os jovens para a vida adulta. “Não. O ensino médio não prepara.”

Ela afirma que apenas os alunos dos cursos técnicos recebem orientações mais concretas sobre currículo, finanças e mercado de trabalho. “A gente aprende porque faz curso técnico. Os outros terceirões não vão saber disso.” Segundo a estudante, métodos de ensino mais participativos conseguem gerar maior engajamento entre os alunos.“Tem professor que faz debate, que faz a gente pensar.”

A mestra em Educação Cristiana Ziehlsdorff afirma que, embora existam avanços nas políticas públicas, o ambiente escolar ainda encontra dificuldades para orientar os alunos sobre o futuro profissional. “O currículo prevê formação cidadã, mas faltam tempo e recursos para trabalhar orientação profissional, acesso a programas públicos e projeto de vida”, explica.

Rotina intensa e preocupações com incertezas do futuro impactam a saúde mental dos jovens

A adolescência é um período de muitas incertezas e decisões sobre o futuro. Qual faculdade fazer? Que carreira seguir? Qual caminho seguir? São perguntas que perpassam a cabeça dos jovens, principalmente no final do ensino médio. Com o celular sempre em mãos, uma pesquisa realizada pelo TIC Kids Online Brasil, realizada em 2024, aponta que 99% dos adolescentes entre 15 e 17 anos têm perfil em redes sociais. 

A saúde mental entre jovens é um assunto cada vez mais evidente em todo o Brasil e dados mostram que os mais afetados são jovens entre 16 e 24 anos. Uma pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizada em 2024 entre alunos de escolas públicas e privadas, revelou que mais de 57% dos alunos se sentem tristes na maior parte do tempo. Os dados alertam para uma realidade preocupante na saúde mental dos jovens. 

De acordo com a psicóloga Rafaela Dallagnol, especialista em Terapia Cognitivo Comportamental pelo Instituto Paranaense de Terapia Cognitiva, nessa fase da vida os jovens apresentam muitas preocupações com o futuro. “Existe uma cobrança muito grande para ter resultados, saber o que querem fazer da vida e dar conta de tudo. Além disso, as redes sociais acabam aumentando as comparações e a sensação de que todo mundo está indo melhor.

Rogéria Becker, coordenadora da EEB Governador Celso Ramos, de Joinville, relata algumas dificuldades que os jovens do ensino médio apresentam na escola. “Atualmente percebemos muitos casos de ansiedade e depressão entre os alunos. Também existem dificuldades relacionadas à comunicação dentro da família. Muitos estudantes têm pais separados e relatam a ausência ou conflitos com um dos responsáveis, o que afeta bastante o emocional deles.”

Guilherme Oliveira, de 17 anos, é aluno do 3° ano do ensino médio na escola  EEB Gov. Celso Ramos, trabalha no período matutino e estuda à noite para conseguir ajudar a família em casa. Para ele essa é uma grande responsabilidade e às vezes se sente pressionado a dar conta de todas as tarefas e lidar com as preocupações do futuro.

“Eu fico muito ansioso de vez em quando, eu trabalho e também tem a questão de focar nos estudos, trabalhos da escola"
Guilherme Oliveira, 17 anos
Estudante

A psicóloga explica como essa rotina de trabalho e estudo pode afetar a saúde mental dos jovens. “É uma rotina que exige bastante. Muitos desses jovens amadurecem mais rápido e desenvolvem responsabilidade, mas também podem ficar mais cansados, estressados e sem tempo para descanso e lazer. Quando essa carga fica muito pesada, a saúde mental pode ser afetada, por isso é importante que eles tenham apoio e momentos para cuidar de si mesmos”, relata. 

De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) aproximadamente 20% das crianças e adolescentes sofrem de algum transtorno mental, e os mais comuns são ansiedade e depressão. Alguns fatores podem contribuir para esse quadro, como o bullying, problemas familiares, insegurança com o futuro, além de questões de autoestima. Rafaela relata alguns sinais que são percebidos nos jovens em casos de ansiedade e sobrecarga emocional. “Irritação mais frequente, dificuldade para dormir, cansaço constante, excesso de preocupação, dificuldade de concentração, queda no rendimento escolar e até sintomas físicos, como dores de cabeça ou dores de barriga sem uma causa médica aparente”, explica. 

Escuta e acolhimento ajudam a identificar sinais de alerta

No ambiente escolar, a coordenadora da escola Gov. Celso Ramos, Rogéria Becker, relatou que existe o Núcleo de Política de Educação, Prevenção, Atenção e Atendimento às Violências na Escola (Nepre), um programa da rede estadual de ensino de Santa Catarina voltado ao acolhimento dos estudantes na escola. O principal objetivo é atender principalmente casos de bullying, porém em situações de saúde mental também é realizado o atendimento. 

Apesar de ser um tema relevante, devido à sensibilidade, ainda é um assunto pouco abordado dentro de sala de aula. Rogéria explica que “o tema é trabalhado em sala de aula com muito cuidado e responsabilidade, pois alguns assuntos podem despertar gatilhos emocionais em determinados alunos, e nem todos os professores se sentem preparados para trabalhar esse assunto”, declara. 

Quando um aluno está muito sensibilizado ou apresenta problemas graves de saúde mental, a escola realiza um atendimento mais aprofundado. “O primeiro passo é conversar com a família para entender a situação do aluno em casa e verificar se ele já possui acompanhamento profissional. Depois, o caso é encaminhado para a orientação escolar e, quando necessário, registrado no Nepre para acompanhamento. e casos mais sério informamos ao conselho tutelar”, explica Rogéria. 

Os pais também exercem um papel fundamental na saúde emocional dos jovens. A psicóloga Rafaela Dallagnol dá dicas de como é possível oferecer ajuda aos filhos em um momento de fragilidade. “A principal ajuda é oferecer apoio e escuta. Muitas vezes os adolescentes já se cobram muito sozinhos. Os pais podem incentivar e orientar, mas sem transformar isso em uma cobrança constante. Mostrar que o filho tem valor independentemente do resultado também faz muita diferença”, explica. 

VÍDEO

A realidade invisível dos jovens que trabalham e estudam

A rotina de estudar, trabalhar e cuidar da saúde mental já seria desafio suficiente para qualquer jovem. Mas essa geração cresce carregando ainda um peso extra: o de construir um futuro em meio a crises que não escolheu e que, muitas vezes, nem consegue nomear. Mudanças climáticas, desigualdade urbana, violência de gênero e instabilidade econômica deixaram de ser pautas distantes para se tornar parte do cotidiano de quem ainda está tentando decidir que vida quer ter.

Com base nesse cenário, a próxima reportagem, assinada por Ellen Gerber e João Guilherme Nascimento, aprofunda o debate sobre como essas crises globais se traduzem na vida concreta dos jovens, e o que está em jogo quando o futuro se torna um território cada vez mais incerto.

especial

Reportagem especial produzida por estudantes do 7º período do curso de Jornalismo da Faculdade Ielusc durante o primeiro semestre letivo de 2026 na disciplina Projeto Jornalístico Multimídia, ministrada pelo professor Hendryo André, com áudios produzidos na disciplina Narrativas Sonoras III, ministrada para o 5º período pela professora Geórgia Santos.

Os conteúdos publicados não refletem necessariamente a posição da Faculdade Ielusc.

editora-chefe

Maria Eduarda Alecrim

Elisa Moraes

Yasmin Pohlmann

editor executivo
textos

Ellen Gerber, João Guilherme Nascimento, Luana da Maia, Milena Natali, Rodrigo Santanna e Sarah Falcão

INFOGRAFIA

Henrique Duarte e Elisa Moraes

vídeos

Anna Bibow, Bruna Borges, Giovana Franco, Guilherme Miranda e Júlia Balsanelli

fotografia

Crislaine Moreira, Leonardo Budal e Stefani Junge

montagem

Maria Eduarda Alecrim e Yasmin Pohlmann

áudios (5ª fase)

Adryan William Dal Negro, Brayam Vinicius Adolfo, Camila Regina Schatzmann Gomes, Camilly Vitoria Antunes, Cauã Vitor Pereira, Danielly Ketlyn Vieira, Gabrielle Dalmoro, Giovanna Marques, Isabelly Marques Andrade, Júlia Gava Vargas, Júlia Moloies, Kamila Fortunato, Kamyli Ellen Batista Goudinho, Kédima dos Santos, Larissa Piske Pereira, Mahyara Luiza dos Santos, Marcus Vinícius de Oliveira, Maria Clara Kuboski dos Santos, Maria Eduarda Ribeiro, Maria Luiza Perovano Pacheco, Priscila Pereira, Raulino de Oliveira Dalcim, Thiago Alexandre dos Santos, Vinicius Vigineski e Yasmin Luiza Rech.

SOBRE NÓS

Primeira Pauta é o jornal-laboratório produzido pelos estudantes do curso de Jornalismo da Faculdade Ielusc. 

EDITORIAS

RETICÊNCIAS

Redes Sociais

 Nos acompanhe nas redes sociais também

©2024. Todos os direitos reservados.