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O que Santa Catarina e Joinville esperam do próximo presidente

 O que Santa Catarina e Joinville esperam do próximo presidente
Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) disputam o segundo turno da eleição presidencial neste domingo (25). Arte: Gabrielle Vieck sobre fotos retiradas no Pinterest
Destaques Joinville e região Política

O que Santa Catarina e Joinville esperam do próximo presidente

by Gabrielle Vieck 24 de outubro de 2026

Rodovias federais, impostos e custo de vida dominam expectativas na região às vésperas do segundo turno entre Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL)

A duplicação da BR-280, a transição da reforma tributária, o acesso a recursos federais para saúde e educação e o custo de vida concentram as expectativas de Santa Catarina e de Joinville em relação ao próximo presidente da República, que será escolhido no segundo turno deste domingo (25). Lideranças políticas de campos opostos, representantes do comércio e das micro e pequenas empresas, especialistas e trabalhadores ouvidos pela reportagem concordam que quase toda a agenda da cidade passa por Brasília, mas divergem sobre qual candidato atenderia melhor a região.

De um lado, a vereadora Vanessa da Rosa (PT) defende a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva como garantia de continuidade de obras e repasses. Do outro, o deputado estadual Sargento Lima (PL) aposta no senador Flávio Bolsonaro para rever pontos da reforma tributária que, segundo ele, prejudicam estados produtores como Santa Catarina.

Infraestrutura é consenso entre os lados

As rodovias federais aparecem em todas as entrevistas. “Se a gente pensar, por exemplo, a questão das estradas, a duplicação da BR-280, a ampliação da BR-101, essas coisas todas estão ligadas ao governo federal”, afirma Vanessa da Rosa. A vereadora atribui à gestão Lula a inauguração do Contorno Viário da Grande Florianópolis e a duplicação de parte da BR-280, com a construção do túnel duplo do Morro do Vieira, entre Jaraguá do Sul e Schroeder, que, segundo ela, está praticamente pronto.

Sargento Lima classifica a malha viária federal da região como “vergonhosa” e cobra contrapartida das praças de pedágio de Garuva e Barra Velha. “Precisamos urgentemente de investimentos na elevação da pista e na conclusão das obras no quilômetro zero da BR-280, que dá acesso ao Porto de São Francisco do Sul, um gargalo que estrangula o escoamento da nossa produção industrial”, diz. Para o deputado, a BR-280 precisa ser duplicada por inteiro até o porto, e a BR-101 precisa de marginais e novos viadutos nos acessos industriais de Joinville.

O tema também une o setor empresarial. O presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) de Joinville, Eduardo Mafra, lista a conclusão da duplicação da BR-280 e melhorias de capacidade e segurança na BR-101 Norte entre as demandas que a entidade quer levar ao próximo governo. “O comércio depende de mercadorias chegando no prazo e de pessoas circulando com segurança. Precisamos transformar essas demandas em compromissos com orçamento, cronograma e acompanhamento das entregas”, afirma.

Reforma tributária divide propostas

A principal diferença entre os cenários está na reforma tributária aprovada pela Emenda Constitucional 132/2023. O texto cria o IVA Dual, formado pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), federal, e pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS), de estados e municípios, e transfere a cobrança do local de produção para o local de consumo.

Para o professor Sérgio Gomes Delitsch, do Instituto Federal Catarinense (IFC) – Campus Araquari, especialista em perícia contábil e contabilidade tributária, a mudança do chamado princípio da origem para o princípio do destino tende a pesar sobre Santa Catarina. “Municípios com forte perfil produtivo e menor população consumidora, como polos industriais, enfrentarão desafios de recomposição fiscal no Fundo de Compensação do IBS, enquanto municípios populosos e centros de consumo tendem a aumentar sua fatia tributária”, avalia.

Segundo a análise de Delitsch, a indústria de transformação ganha com o fim da cumulatividade de tributos, mas perde gradualmente, até 2032, os incentivos fiscais estaduais de ICMS conhecidos como Tratamentos Tributários Diferenciados (TTDs). O setor de serviços deve ser o mais afetado pela alíquota, estimada em 27,91%, por gerar poucos créditos a descontar.

Na leitura do professor, os dois candidatos desenham caminhos distintos:

  • Lula: continuidade da regulamentação da reforma, com o Conselho Federativo do IBS e fundos federais de compensação para mitigar perdas da indústria, além de investimentos via Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
  • Flávio Bolsonaro: revisão de pontos da reforma, como o split payment (recolhimento automático do imposto no momento do pagamento), e contenção de gastos para tentar reduzir a alíquota. Delitsch alerta que flexibilizar a arrecadação sem cortar despesas obrigatórias pode elevar os juros futuros.

Sargento Lima afirma que a reforma “fere mortalmente o pacto federativo” e que o split payment “vai drenar o fluxo de caixa das empresas joinvilenses em tempo real”. Segundo o deputado, Flávio Bolsonaro já sinalizou a suspensão temporária desse mecanismo e a reavaliação da centralização do IBS no Conselho Federativo.

Polo industrial e pequenas empresas na transição

No polo industrial de Joinville e Araquari, a análise de Delitsch aponta que a montadora e a cadeia de autopeças dependem do ressarcimento rápido de créditos tributários, enquanto os setores metalmecânico e de plásticos ganham competitividade com o fim da cumulatividade, mas perdem a vantagem dos incentivos estaduais. Para o professor, a região terá de atrair investimentos pela eficiência logística, pela mão de obra qualificada e pela infraestrutura urbana.

Os pequenos negócios enfrentam outro dilema. O presidente da Associação de Joinville e Região da Pequena, Micro e Média Empresa (Ajorpeme), William Holz, explica que o Simples Nacional será mantido, mas as empresas terão de decidir se recolhem IBS e CBS dentro do regime ou pelo modelo regular, chamado de híbrido. A escolha muda o crédito tributário repassado aos clientes, o que pode custar contratos com a grande indústria. Pelo cronograma citado por Holz, a cobrança efetiva da CBS começa em 2027, a substituição do ICMS e do ISS pelo IBS começa em 2029 e a transição termina em 2033.

Holz também cobra a atualização do teto do Simples Nacional. “Ele está defasado desde o ano de 2016, fator que tem prejudicado e muito os empreendedores do regime, os quais precisam ou deixar de produzir para não extrapolar o limite, ou migrar para outro regime com cargas tributárias muito elevadas”, afirma. Segundo ele, a entidade vai olhar menos para quem vence e mais para as medidas adotadas.

Relação com um estado de oposição

Santa Catarina costuma dar votações expressivas à direita, o que levanta a questão de como ficaria a relação com Brasília em caso de reeleição de Lula. Para Vanessa da Rosa, “quem ganha governa para todos”. A vereadora cita obras do PAC em Joinville, como a Unidade Básica de Saúde (UBS) do Vila Nova, prestes a ser inaugurada, e o Centro de Artes e Esportes Unificados (CEU) do Ademar Garcia, em fase de projeto e licitação, e cobra do governo estadual mais diálogo com ministros e com o presidente.

Sargento Lima avalia que, com Lula, Santa Catarina continuará “sendo tratada como uma colônia de arrecadação”. Com Flávio, diz, haveria “alinhamento direto entre o Palácio do Planalto e o governo do estado”. O deputado afirma que, independentemente do resultado, vai articular emendas para a saúde e a segurança pública de Joinville e defende que o estado siga investindo recursos próprios em rodovias federais se a União não fizer a sua parte.

Entre as prioridades citadas por Vanessa da Rosa estão ainda a ampliação da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e do Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) na cidade, especialmente na zona sul, a vinda de um hospital universitário com curso de Medicina e a proposta de transformar o prédio dos antigos Correios, no Centro, em polo do IFSC. Já Sargento Lima prioriza a atualização dos valores da tabela SUS repassados aos hospitais filantrópicos e municipais.

Polarização vai além das urnas

A divisão entre os dois campos não se limita às propostas. O sociólogo Charles Henrique Voos, especialista em análise sociopolítica, relaciona a polarização a um medo que, segundo ele, ganhou força a partir de 2010, com o avanço das redes sociais: o de que políticas públicas tirariam o que as classes média e alta já têm. “A política pública não é para tirar privilégios necessariamente da maioria. É justamente fazer com que esses privilégios que existem hoje possam ser disseminados, coletivizados e expandidos”, afirma. Ele cita educação, cultura, lazer e acesso à saúde como exemplos.

Na avaliação de Voos, esse medo “foi se revestindo em uma camada de ódio” contra quem pensa diferente, com reflexos nas relações familiares, no trabalho e nas amizades. O sociólogo compara a lógica à de torcidas organizadas que marcam brigas antes dos jogos. “Você não serve se não pensar da mesma maneira que eu penso”, resume.

Para ele, a participação política não termina no voto. Associações de moradores, conselhos e outros instrumentos de participação direta permitem acompanhar, cobrar e fiscalizar os eleitos ao longo do mandato. “A hora do voto é apenas um estágio da democracia, um estágio importante, mas não é o único”, diz.

O que esperam os trabalhadores

Longe dos debates sobre alíquotas, quem trabalha na cidade fala em custo de vida. O representante de vendas Edmar Ribeiro, de 44 anos, atende supermercados de Joinville e região durante o dia e dirige por aplicativo à noite e nos fins de semana para complementar a renda. “Quando os alimentos sobem muito, a rota de vendas fica mais difícil porque o comerciante segura os pedidos e o consumidor reduz o carrinho no supermercado”, conta. Ao volante, o desafio é o preço do combustível, a manutenção do carro e o trânsito, que reduzem o ganho por hora. A rotina dele ilustra um dos temas que Voos coloca na mesa do próximo governo: a plataformização e a uberização do trabalho.

“O que o trabalhador mais precisa é de estabilidade econômica, controle firme da inflação e juros mais baixos para que o crédito volte a girar a economia”.

Edmar ribeiro, representante de vendas

A estagiária de Design Gráfico Thayná Cunha, de 20 anos, estuda com bolsa integral. Ela aponta a baixa remuneração dos estágios diante do custo de vida e do transporte e a pressão do uso descontrolado de inteligência artificial sobre o trabalho criativo. Do próximo governo, espera a manutenção de programas de bolsas e financiamento estudantil e políticas de incentivo ao primeiro emprego. “Também são necessárias políticas que garantam direitos básicos aos estagiários e apoiem a formação profissional alinhada às novas tecnologias”, afirma.

Desafios vão além de quem vencer

Para as entidades empresariais, a cobrança continua depois da apuração. “Nossa disposição para o diálogo e nossa responsabilidade de cobrança serão as mesmas nos dois cenários”, diz Eduardo Mafra, da CDL. Segundo ele, a agenda de Joinville permanece a mesma: infraestrutura, ambiente favorável ao empreendedorismo, segurança jurídica e condições para gerar emprego e renda.

O professor Delitsch aponta três desafios que o próximo governo federal terá em Santa Catarina, seja quem for o eleito: garantir os aportes ao fundo que compensa o fim dos incentivos de ICMS, criar um cronograma ágil de devolução dos créditos acumulados pela indústria e concluir as duplicações das BRs 101, 280 e 470. Para ele, os gargalos nessas rodovias funcionam como um “imposto oculto” sobre a produção de Joinville e região.

Voos amplia a lista para o cenário nacional e internacional. Segundo o sociólogo, o próximo presidente terá de lidar com a financeirização da economia, as mudanças climáticas e a transição energética, as tensões geopolíticas com os Estados Unidos de Donald Trump, a disputa por terras raras, os conflitos armados que afetam os preços do petróleo e dos fertilizantes, o avanço da religião sobre a política e um Congresso que ele classifica como “ultraconservador”, com risco de crises institucionais. “Um governo de direita ou de esquerda vai tratar essas questões de maneiras diferentes, mas são questões que vão estar à mesa de ambos os lados”, afirma.

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Nota de transparência: ferramentas de inteligência artificial foram utilizadas sob supervisão e responsabilidade editorial da autora. A organização das falas das fontes foi feita com o NotebookLM, para a edição final do texto foi utilizado o Claude. A apuração, as entrevistas e a checagem das informações foram feitas pela autora. A arte de capa foi produzida pela autora a partir de fotos retiradas do Pinterest e edição realizada no Canva. As imagens da BR-280 são do DNIT, e as imagens dos atos de campanha foram retiradas do Youtube.

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Tags: Ajorpeme BR-101 BR-280 CDL Joinville Eleições 2026 Joinville PL PT Reforma tributária Simples Nacional
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